Eu sou uma apaixonada pela literatura infantil e agradeço demais à maternidade por essa redescoberta. O prazer da leitura me fez aprofundar acerca de autores e suas grandes obras. Procurei informações, conteúdos e até hoje acompanho sites, canais e perfis que são referências nessa área para estar sempre antenada sobre lançamentos, reedições ou descobrir preciosidades que a maioria desconhece.
Eu planejava fazer um texto sobre algumas autoras nacionais (inclusive redigi algumas folhas), mas estagnei nos hiatos das linhas pontilhadas. Dentre essas escritoras está uma das minhas favoritas, Lúcia Hiratsuka.
Eu gosto demais do modo como ela revisita as memórias nas suas narrativas. São histórias amiúde de luta e resiliência, porém tratadas com delicadeza, com o aroma do ar bucólico de cidade do interior e impregnadas de muito amor. Essa sensibilidade fica nítida pelo método que ela executa suas ilustrações, o sumi-ê, uma técnica milenar chinesa que se difundiu muito no Japão e caracterizada pela simplicidade do traço. A aquarela e os lápis de cor nos conectam a um passado de cores suaves.
Certa vez, durante uma entrevista, Lúcia comentara que ainda pequena viu a avó fazer um rabisco de um peixinho no chão de terra do sítio em que moravam no interior paulista e dali em diante ela só queria desenhar e alimentar o lugar com sua arte.
Amanhã versa sobre ancestralidade, a herança familiar que carregamos em cada um de nós. Três gerações diferentes de meninas que só querem conhecer o mundo através da escola e desenhadas com a doçura dos coloridos dos lápis.
Se já leram mais obras da escritora, alguns personagens de outras histórias também se encontram em Amanhã. Orie e Sayuri, avó e mãe de Lúcia, respectivamente. Entretanto não diminui a experiência caso sejam apresentadas a elas na leitura dessa recente história.
As trilhas permeiam a narrativa, as pontes para o saber. Meninas de épocas distintas conduzidas pela natureza ao horizonte de irem além do que convêm ser.
Lúcia anseia que o dia passe rápido, porém as horas se arrastam e o sol não adormece. Marmita nova que não cabe no bornal. Este carregado de sonhos: um caderno, lápis e borracha. A mãe alinhava de forma ligeira, de forma oposta ao tempo que espreguiça no entardecer. Chega a noite e a lua e as estrelas criam fagulhas no negrume do céu. Boa noite, senhora Lua, sei de sua rara beleza. Perdoe-me, mas só hoje corra apressada e deixe o dia amanhecer.
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Sayuri ainda sob a luz do luar caminhava na longa estrada de chão. Não estava sozinha. Os lampiões que cada criança segurava com firmeza pareciam vaga-lumes fazendo voos rasantes em busca da escola antes do sol se achegar. Durante a Segunda Guerra, imigrantes japoneses eram proibidos de estudar. Uma guerra tão distante interferia no mundo de cá e em consequência a escola não se fixava em um lugar. Havia dias que vultos sombrios se assomavam deixando seus rastros de destruição, todavia fora-se o arcabouço e a esperança havia de perdurar. Transmutava-se para um novo espaço que só no amanhã iriam encontrar.
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Orie percorria todo dia a mesma rota repleta de pedriscos. Os cânticos encobriam os medos, sua casa que sumia aos olhos e os bambus, espectadores da jornada diária, abriam caminho para a escola. Um pátio grande para as brincadeiras e lá um pouco mais na frente reluzia o amanhã. Até o rei sol espreitava na janela para ver o monge ensinar as letras para os pequenos. Lá as horas fugiam depressa. Acalme-se, tempo, mais aqui quero estar. A volta para casa era de incertezas, se o amanhã que saltitava impaciente ainda lá estará.