segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

 



Eu, conforme já disse outrora, tenho cada vez mais dificuldade de escolher o melhor álbum musical do ano. É uma forma de mostrar meu desconhecimento e preguiça acerca do que está acontecendo de relevante no cenário musical.

Amo doramas e suas trilhas sonoras, porém ainda não criei vínculos com o Kpop. Amo filmes e suas trilhas sonoras, contudo pouquíssimo vou atrás de bandas ou cantores(as), procuro por maestros/compositores. Não faço compêndios como antes. Ouço músicas soltas. Indicaria para os amantes da boa música, o perfil do meu amigo Tiago, contudo ele largou essa vida “instagramável”. Lê-lo era como me debruçar na minha antiga revista BIZZ. Para amenizar minha orfandade, acompanho as publicações do @escritorvorocha que me apresenta a artistas e bandas do panorama musical atual. Seu apurado conhecimento nos presenteia com ótimos textos. A propósito, ele fez duas postagens sobre os melhores álbuns nacionais e internacionais de 2022. Confiram! 

Eu bem que poderia destrinchar aqui alguns álbuns do ano passado como o novo do rapper Kendrick Lamar, assim como os das bandas Yeah Yeah Yeahs, Porcupine Tree e Florence and The Machine. Também poderia comentar sobre os ótimos discos de Harry Styles, o superstar da atualidade, The Weekend e o pop vibrante carregado de suas raízes culturais da espanhola Rosalía, entretanto vou me ater a The Tipping Point, álbum do Tears for Fears lançado em fevereiro de 2022. 

Certamente, em algum momento, você se viu comparando passado e presente de um artista. Como um(a) criador(a) de hits sucessivos em décadas anteriores não emplaca, mesmo na ativa, canções tão emblemáticas como outrora. Lulu Santos é um grande hitmaker. Sabemos de cor suas músicas, mas as atuais praticamente desconhecemos. Elas não têm o mesmo impacto e não carregam tantas memórias afetivas. É uma competição notoriamente injusta. Enterramos os pés no pretérito para tais artistas. Confirmamos que a fonte criativa estagnou com o tempo e estes persistem como simulacros de si mesmos.




A dupla formada por Roland Orzabal e Curt Smith que se dissolveu na década de 90 reagrupou-se em 2004 em um bom álbum, mas com recepção mista. Dezoito anos depois, os dois trazem 10 canções numa conversa íntima e sincera sobre perdas, amores e a impermanência de vida. Um disco que mescla de forma impecável o moderno com o nostálgico.

Eu conheço pessoas que diariamente abrem aquele livreto Minutos de Sabedoria, fecham os olhos e deixam a imprevisibilidade sortear a frase do dia: um conselho, uma frase motivadora ou uma reflexão. Sem querer ser doutrinário e sem nenhum caráter depreciativo da minha parte, o novo álbum do Tears for Fears me remeteu ao famoso livrinho. Não pinta apenas tonalidades vibrantes, acolhe a monocromia de um passado inclemente e vislumbra um futuro de um mosaico de cores. É uma sessão de terapia e das boas!

As dez canções que compõem o disco por mais que guardem uma certa semelhança da sonoridade da banda em outros trabalhos, em nenhum momento soam repetitivas.

A música de abertura No Small Thing traz as vozes em um tom levemente mais alto que a melodia. Os acordes do violão remetem ao folk e a harmonia vocal, às grandes canções de Simon & Garfunkel ou até mesmo de Bob Dylan. A faixa-título do álbum, The Tipping Point, faz uso dos sintetizadores que tanto marcaram a banda nos anos 80, o synth-pop. A ária retrata aquele momento onde precisamos movimentar a roda do tempo e conciliar-se com o passado de dor e luto. 

Long, Long, Long Time na voz suave de Curtis é uma ótima representante do new wave e tem um dos melhores refrões de todo álbum que inspiram o cerrar dos olhos, o menear da cabeça e braços que almejam o infinito. Novamente aqui Orzabal reflete o processo do luto depois da morte da esposa. Break the Man amiúde parece uma continuidade de Woman In Chains. Um ótimo manifesto pró-feminista. 

My Demons tem uma batida mais potente. São sintetizadores e música eletrônica que reverberam da canção. Rivers of Mercy é uma baladinha graciosa, uma prece de libertação. Please Be Happy segue a linha melódica das canções de McCartney conduzidas pelo piano. É Beatles na sua beleza mais singular e talvez minha favorita.

Master Plan também emula os Beatles, mas nunca é uma referência vazia ou cópia de outras canções. End of Night esconde por trás do seu groove e da vibração dos sintetizadores uma melancolia em toda sua opulência. Lidar com a doença da parceira, o seu fenecer e a sensação asfixiante de culpa são cicatrizes indeléveis que Orzabal tenta expurgar em seu cântico.

Stay fecha o álbum de uma forma inebriante e num ar etéreo. Lembra em determinados momentos os elementos melódicos dos adágios da banda de post-rock Sigur Rós com um caráter existencialista. 




Nesse novo álbum tanto Smith como Orzabal não estão interessados em inovações musicais nem em reviver o passado. A síntese de The Tipping Point é a celebração dessa parceria. São as belíssimas letras e ótimas melodias advindas de um dueto com uma química incrível. É ululante que ninguém sabe fazer refrões como esses dois. Um disco que você não cansa de ouvir sem pular uma faixa sequer.

Nessa jornada emocional, Tears For Fears nos transporta ao olho do furacão e nos convida a enxergar que depois do tormento e diante das nuvens que se afastam, do cheiro da relva parcialmente molhada e da areia ainda úmida, o sol invariavelmente irá se formar.



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