Quando vi o primeiro anúncio da
HQ pela Editora Nemo eu senti uma conexão imediata. Talvez haja um conflito de
interesses nos meus argumentos, já que fui induzida a gostar da leitura devido
inicialmente à arte de Carole Maurel que é um desbunde. As cores quentes
atravessam a narrativa que traz um retrato da época em que a França fora
ocupada pelo exército alemão durante a Segunda Guerra. Apesar de o amor
proibido entre uma francesa e um soldado alemão ser o cerne do enredo, Navie
pincela com muita sensibilidade a história de outras mulheres que tangenciam a
trama da protagonista.
Colaboração Horizontal me remeteu a um filme não bem recebido pela crítica, Suíte Francesa. O longa protagonizado por Michelle Williams foi adaptado do livro homônimo de grande sucesso cuja escritora nem concluíra seu trabalho porque fora enviada para Auschwitz e lá falecera. Seus manuscritos foram descobertos pelas filhas anos depois.
No filme, o amor mútuo pela música aproxima a personagem de Williams ao de um tenente alemão que se hospeda na casa em que divide com sua sogra enquanto o marido luta na guerra. Entretanto é nítido que o romance entre os dois está destinado ao fracasso.
A expressão Colaboração Horizontal
se refere às mulheres francesas que se relacionaram com os soldados alemães ou
até mesmo se prostituíram durante a ocupação nazista no país. No pós-guerra
mais de 20.000 mulheres foram vilipendiadas, apedrejadas e espancadas. Raspavam seus cabelos e marcavam nas suas peles com tinta ou ferro quente a suástica nazista em uma grande exposição pública. Ademais, os filhos gerados dessas relações eram considerados bastardos e submetidos constantemente ao escrutínio popular.
O que é mais interessante no quadrinho
é o recorte que ele faz sobre a posição feminina nesses anos. Se a Guerra
submeteu o povo francês a todos os tipos de infortúnios, as mulheres sofreram
ainda mais. Um amálgama de abusos e
repressões cujas feridas ainda ardem atualmente. A esposa gestante subjugada
pelo marido truculento. A garota que procura seu papel no mundo além das
convenções sociais e questiona sua sexualidade perante o enfrentamento com uma
mãe que não a compreende. A solidão acachapante de uma bela jovem que
se prostitui para sobreviver. A judia que se esconde no prédio onde mora Rose
para não ser levada pelos chucrutes. A síndica intrometida que lê as
correspondências alheias e que vive no embate com uma misteriosa senhora que
aluga o porão do prédio onde não apenas residem seus gatos.
Essas narrativas femininas se entrelaçam e repercutem uma na outra de forma impactante. As ilustrações de Carole Maurel maximizam a importância de contar essas histórias. Ela executa de maneira brilhante as transições entre os quadros e os matizes das cores (e que paleta linda!), além de fazer nas últimas páginas da HQ uma ótima analogia entre homens e animais quando aqueles estão imersos na selvageria da guerra, no ufanismo de muletas e na hipócrita preservação dos costumes.
O roteiro escapa de algumas
armadilhas como fazer julgamento moral de suas personagens e é surpreendente
que a relação de Mark e Rose já existe desde o início do enredo, não perdendo
tempo na construção desse amor, uma obviedade que estaria presente em outras
obras, contudo a sacada mais genial e terna do quadrinho é encontrarmos
contígua à terceira capa uma folha avulsa dobrada ao meio e dentro dela uma
determinada carta presente na trama que até ali não sabíamos o conteúdo. De
esmigalhar até os corações mais gélidos.
