quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023



 

Quando vi o primeiro anúncio da HQ pela Editora Nemo eu senti uma conexão imediata. Talvez haja um conflito de interesses nos meus argumentos, já que fui induzida a gostar da leitura devido inicialmente à arte de Carole Maurel que é um desbunde. As cores quentes atravessam a narrativa que traz um retrato da época em que a França fora ocupada pelo exército alemão durante a Segunda Guerra. Apesar de o amor proibido entre uma francesa e um soldado alemão ser o cerne do enredo, Navie pincela com muita sensibilidade a história de outras mulheres que tangenciam a trama da protagonista.




Colaboração Horizontal me remeteu a um filme não bem recebido pela crítica, Suíte Francesa. O longa protagonizado por Michelle Williams foi adaptado do livro homônimo de grande sucesso cuja escritora nem concluíra seu trabalho porque fora enviada para Auschwitz e lá falecera. Seus manuscritos foram descobertos pelas filhas anos depois.




No filme, o amor mútuo pela música aproxima a personagem de Williams ao de um tenente alemão que se hospeda na casa em que divide com sua sogra enquanto o marido luta na guerra. Entretanto é nítido que o romance entre os dois está destinado ao fracasso.




       
A expressão Colaboração Horizontal se refere às mulheres francesas que se relacionaram com os soldados alemães ou até mesmo se prostituíram durante a ocupação nazista no país. No pós-guerra mais de 20.000 mulheres foram vilipendiadas, apedrejadas e espancadas. Raspavam seus cabelos e marcavam nas suas peles com tinta ou ferro quente a suástica nazista em uma grande exposição pública. Ademais, os filhos gerados dessas relações eram considerados bastardos e submetidos constantemente ao escrutínio popular.





O que é mais interessante no quadrinho é o recorte que ele faz sobre a posição feminina nesses anos. Se a Guerra submeteu o povo francês a todos os tipos de infortúnios, as mulheres sofreram ainda mais. Um amálgama de abusos e repressões cujas feridas ainda ardem atualmente. A esposa gestante subjugada pelo marido truculento. A garota que procura seu papel no mundo além das convenções sociais e questiona sua sexualidade perante o enfrentamento com uma mãe que não a compreende. A solidão acachapante de uma bela jovem que se prostitui para sobreviver. A judia que se esconde no prédio onde mora Rose para não ser levada pelos chucrutes. A síndica intrometida que lê as correspondências alheias e que vive no embate com uma misteriosa senhora que aluga o porão do prédio onde não apenas residem seus gatos.




Essas narrativas femininas se entrelaçam e repercutem uma na outra de forma impactante. As ilustrações de Carole Maurel maximizam a importância de contar essas histórias. Ela executa de maneira brilhante as transições entre os quadros e os matizes das cores (e que paleta linda!), além de fazer nas últimas páginas da HQ uma ótima analogia entre homens e animais quando aqueles estão imersos na selvageria da guerra, no ufanismo de muletas e na hipócrita preservação dos costumes.





O roteiro escapa de algumas armadilhas como fazer julgamento moral de suas personagens e é surpreendente que a relação de Mark e Rose já existe desde o início do enredo, não perdendo tempo na construção desse amor, uma obviedade que estaria presente em outras obras, contudo a sacada mais genial e terna do quadrinho é encontrarmos contígua à terceira capa uma folha avulsa dobrada ao meio e dentro dela uma determinada carta presente na trama que até ali não sabíamos o conteúdo. De esmigalhar até os corações mais gélidos.








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