segunda-feira, 1 de maio de 2023

    



Em uma determinada ocasião enquanto entrevistava Tom Jobim, Clarice Lispector divagou após ouvir a reposta discordante que Tom dera à sua pergunta sobre a sensação conjunta de fazer parte de uma geração fracassada: “É que eu sinto que nós chegamos ao limiar de portas que estavam abertas – e por medo ou pelo que não sei, não atravessamos plenamente essas portas. Que no entanto têm nelas já gravadas nosso nome. Cada pessoa tem uma porta com seu nome gravado, Tom, e é só através dela que essa pessoa perdida pode entrar e se achar”. 

As histórias de Makoto Shinkai não possuem diferenças abissais entre elas. No seu universo particular, jovens descobrem o amor diante de imagens em cores bem saturadas e em um belo jogo de luzes, criando paisagens deslumbrantes aliadas a uma temática sobrenatural.

Your Name é uma animação que me tocou profundamente e ainda reverbera em mim sem uma explanação concreta. Não é apenas o romance juvenil. É uma conexão com o passado, embora não tenhamos vivenciado nada semelhante. É um retorno a um ambiente familiar e caloroso. É singrar pela memória afetiva de outrora. 

É o amanhecer cedo e estacionar em cada cômodo para um breve cochilo. É o curto espaço de tempo  para o café da manhã porque nos confortamos por longos minutos na toalha úmida. É o sentar na cadeira da classe na expectativa do intervalo entre uma aula e outra para finalmente encontrar o objeto do afeto. É admirar a plenitude de um sorriso sem nem que ele desconfie da taquicardia que causa em alguém a alguns centímetros dele. É passear pela biblioteca e vê-lo devolver um livro. É correr para pegar o mesmo livro e a alegria gerada pelo contato indireto das mãos. É a beleza do encantamento de um sentimento até então despercebido. É o enamorar independente de cruzar o olhar. 

As narrativas de Makoto Shankai nos carregam para a saudosa melancolia que permeia esses momentos marcantes. É um John Hughes tecido em um mundo fantástico que enaltece às belezas naturais que deixamos de espreitar. 

Os gatos não são personagens exclusivos de Shinkai ou do Studio Ghibli nem de outros animes. São figuras recorrentes nas diversas formas artísticas japonesas. Estão relacionados à mitologia, ocupando um lugar entre o divino e o mundano. São símbolos de sorte e de proteção e não menos leais que os cachorros. 



Suzume fala sobre o luto. Sobre transmutar ciclones em brisas e amainar a dor, o sofrimento da perda e as palavras sussurradas nunca mais ditas. 

Shinkai revela a emergência de monstros antes enclausurados e separados do mundo humano por portões mágicos onde também vivem seres místicos vigilantes que não conseguem controlar o estado impermanente dessas criaturas, resultando em eventos cataclísmicos.

Nesta animação o romance não é o foco, embora esteja presente. É uma história sobre amadurecimento de uma garota que criou muralhas e fronteiras com o tempo pretérito. É o conto de um povo e seus traumas recentes em uma referência direta ao desastre natural colossal pelo qual o território nipônico passou em março de 2011. 

Na sua jornada de evitar uma catástrofe iminente no Japão, Suzume transita por panoramas e pessoas distintas que guardam entre si uma característica: a gentileza. Por mais que o passado fosse algo que tentasse abrigar nos recônditos da mente onde nem as reminiscências tentam avizinhar, a fraternidade é a chave para um futuro mais acolhedor. 

Makoto Shinkai, através de suas metáforas e símbolos, reverencia o passado, inclusive com todas suas sombras, numa forma clara de que é necessário revisitá-lo para prosseguir perante as inúmeras vicissitudes do porvir. 



Talvez eu almejasse no início da projeção algo que se afastasse de Your Name e se aproximasse do belíssimo O Jardim das Palavras. Porventura também eu esteja deveras cética e tenha considerado o arrebatamento de Suzume por Sōta mais acelerado, contudo a capacidade de Makoto Shinkai de nos fazer mergulhar no seu universo que entrelaça fantasia e realidade é incontestável. O poder de arrebatamento de suas narrativas apagam as mínimas falhas e implicâncias que teimo em denotar. Decerto somos tal como cadeirinhas com três pés, trôpegas, continuamente aprendendo a correr e saltar.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023



 

Quando vi o primeiro anúncio da HQ pela Editora Nemo eu senti uma conexão imediata. Talvez haja um conflito de interesses nos meus argumentos, já que fui induzida a gostar da leitura devido inicialmente à arte de Carole Maurel que é um desbunde. As cores quentes atravessam a narrativa que traz um retrato da época em que a França fora ocupada pelo exército alemão durante a Segunda Guerra. Apesar de o amor proibido entre uma francesa e um soldado alemão ser o cerne do enredo, Navie pincela com muita sensibilidade a história de outras mulheres que tangenciam a trama da protagonista.




Colaboração Horizontal me remeteu a um filme não bem recebido pela crítica, Suíte Francesa. O longa protagonizado por Michelle Williams foi adaptado do livro homônimo de grande sucesso cuja escritora nem concluíra seu trabalho porque fora enviada para Auschwitz e lá falecera. Seus manuscritos foram descobertos pelas filhas anos depois.




No filme, o amor mútuo pela música aproxima a personagem de Williams ao de um tenente alemão que se hospeda na casa em que divide com sua sogra enquanto o marido luta na guerra. Entretanto é nítido que o romance entre os dois está destinado ao fracasso.




       
A expressão Colaboração Horizontal se refere às mulheres francesas que se relacionaram com os soldados alemães ou até mesmo se prostituíram durante a ocupação nazista no país. No pós-guerra mais de 20.000 mulheres foram vilipendiadas, apedrejadas e espancadas. Raspavam seus cabelos e marcavam nas suas peles com tinta ou ferro quente a suástica nazista em uma grande exposição pública. Ademais, os filhos gerados dessas relações eram considerados bastardos e submetidos constantemente ao escrutínio popular.





O que é mais interessante no quadrinho é o recorte que ele faz sobre a posição feminina nesses anos. Se a Guerra submeteu o povo francês a todos os tipos de infortúnios, as mulheres sofreram ainda mais. Um amálgama de abusos e repressões cujas feridas ainda ardem atualmente. A esposa gestante subjugada pelo marido truculento. A garota que procura seu papel no mundo além das convenções sociais e questiona sua sexualidade perante o enfrentamento com uma mãe que não a compreende. A solidão acachapante de uma bela jovem que se prostitui para sobreviver. A judia que se esconde no prédio onde mora Rose para não ser levada pelos chucrutes. A síndica intrometida que lê as correspondências alheias e que vive no embate com uma misteriosa senhora que aluga o porão do prédio onde não apenas residem seus gatos.




Essas narrativas femininas se entrelaçam e repercutem uma na outra de forma impactante. As ilustrações de Carole Maurel maximizam a importância de contar essas histórias. Ela executa de maneira brilhante as transições entre os quadros e os matizes das cores (e que paleta linda!), além de fazer nas últimas páginas da HQ uma ótima analogia entre homens e animais quando aqueles estão imersos na selvageria da guerra, no ufanismo de muletas e na hipócrita preservação dos costumes.





O roteiro escapa de algumas armadilhas como fazer julgamento moral de suas personagens e é surpreendente que a relação de Mark e Rose já existe desde o início do enredo, não perdendo tempo na construção desse amor, uma obviedade que estaria presente em outras obras, contudo a sacada mais genial e terna do quadrinho é encontrarmos contígua à terceira capa uma folha avulsa dobrada ao meio e dentro dela uma determinada carta presente na trama que até ali não sabíamos o conteúdo. De esmigalhar até os corações mais gélidos.








domingo, 29 de janeiro de 2023




Eu sou uma apaixonada pela literatura infantil e agradeço demais à maternidade por essa redescoberta. O prazer da leitura me fez aprofundar acerca de autores e suas grandes obras. Procurei informações, conteúdos e até hoje acompanho sites, canais e perfis que são referências nessa área para estar sempre antenada sobre lançamentos, reedições ou descobrir preciosidades que a maioria desconhece.


Eu planejava fazer um texto sobre algumas autoras nacionais (inclusive redigi algumas folhas), mas estagnei nos hiatos das linhas pontilhadas. Dentre essas escritoras está uma das minhas favoritas, Lúcia Hiratsuka. 

Eu gosto demais do modo como ela revisita as memórias nas suas narrativas. São histórias amiúde de luta e resiliência, porém tratadas com delicadeza, com o aroma do ar bucólico de cidade do interior e impregnadas de muito amor. Essa sensibilidade fica nítida pelo método que ela executa suas ilustrações, o sumi-ê, uma técnica milenar chinesa que se difundiu muito no Japão e caracterizada pela simplicidade do traço. A aquarela e os lápis de cor nos conectam a um passado de cores suaves. 

Certa vez, durante uma entrevista, Lúcia comentara que ainda pequena viu a avó fazer um rabisco de um peixinho no chão de terra do sítio em que moravam no interior paulista e dali em diante ela só queria desenhar e alimentar o lugar com sua arte. 

Amanhã versa sobre ancestralidade, a herança familiar que carregamos em cada um de nós. Três gerações diferentes de meninas que só querem conhecer o mundo através da escola e desenhadas com a doçura dos coloridos dos lápis.

Se já leram mais obras da escritora, alguns personagens de outras histórias também se encontram em Amanhã. Orie e Sayuri, avó e mãe de Lúcia, respectivamente. Entretanto não diminui a experiência caso sejam apresentadas a elas na leitura dessa recente história.

As trilhas permeiam a narrativa, as pontes para o saber. Meninas de épocas distintas conduzidas pela natureza ao horizonte de irem além do que convêm ser. 




Lúcia anseia que o dia passe rápido, porém as horas se arrastam e o sol não adormece. Marmita nova que não cabe no bornal. Este carregado de sonhos: um caderno, lápis e borracha. A mãe alinhava de forma ligeira, de forma oposta ao tempo que espreguiça no entardecer. Chega a noite e a lua e as estrelas criam fagulhas no negrume do céu. Boa noite, senhora Lua, sei de sua rara beleza. Perdoe-me, mas só hoje corra apressada e deixe o dia amanhecer.


Sayuri ainda sob a luz do luar caminhava na longa estrada de chão. Não estava sozinha. Os lampiões que cada criança segurava com firmeza pareciam vaga-lumes fazendo voos rasantes em busca da escola antes do sol se achegar. Durante a Segunda Guerra, imigrantes japoneses eram proibidos de estudar. Uma guerra tão distante interferia no mundo de cá e em consequência a escola não se fixava em um lugar. Havia dias que vultos sombrios se assomavam deixando seus rastros de destruição, todavia fora-se o arcabouço e a esperança havia de perdurar. Transmutava-se para um novo espaço que só no amanhã iriam encontrar. 




Orie percorria todo dia a mesma rota repleta de pedriscos. Os cânticos encobriam os medos, sua casa que sumia aos olhos e os bambus, espectadores da jornada diária, abriam caminho para a escola. Um pátio grande para as brincadeiras e lá um pouco mais na frente reluzia o amanhã. Até o rei sol espreitava na janela para ver o monge ensinar as letras para os pequenos. Lá as horas fugiam depressa. Acalme-se, tempo, mais aqui quero estar. A volta para casa era de incertezas, se o amanhã que saltitava impaciente ainda lá estará. 

 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

 



Eu, conforme já disse outrora, tenho cada vez mais dificuldade de escolher o melhor álbum musical do ano. É uma forma de mostrar meu desconhecimento e preguiça acerca do que está acontecendo de relevante no cenário musical.

Amo doramas e suas trilhas sonoras, porém ainda não criei vínculos com o Kpop. Amo filmes e suas trilhas sonoras, contudo pouquíssimo vou atrás de bandas ou cantores(as), procuro por maestros/compositores. Não faço compêndios como antes. Ouço músicas soltas. Indicaria para os amantes da boa música, o perfil do meu amigo Tiago, contudo ele largou essa vida “instagramável”. Lê-lo era como me debruçar na minha antiga revista BIZZ. Para amenizar minha orfandade, acompanho as publicações do @escritorvorocha que me apresenta a artistas e bandas do panorama musical atual. Seu apurado conhecimento nos presenteia com ótimos textos. A propósito, ele fez duas postagens sobre os melhores álbuns nacionais e internacionais de 2022. Confiram! 

Eu bem que poderia destrinchar aqui alguns álbuns do ano passado como o novo do rapper Kendrick Lamar, assim como os das bandas Yeah Yeah Yeahs, Porcupine Tree e Florence and The Machine. Também poderia comentar sobre os ótimos discos de Harry Styles, o superstar da atualidade, The Weekend e o pop vibrante carregado de suas raízes culturais da espanhola Rosalía, entretanto vou me ater a The Tipping Point, álbum do Tears for Fears lançado em fevereiro de 2022. 

Certamente, em algum momento, você se viu comparando passado e presente de um artista. Como um(a) criador(a) de hits sucessivos em décadas anteriores não emplaca, mesmo na ativa, canções tão emblemáticas como outrora. Lulu Santos é um grande hitmaker. Sabemos de cor suas músicas, mas as atuais praticamente desconhecemos. Elas não têm o mesmo impacto e não carregam tantas memórias afetivas. É uma competição notoriamente injusta. Enterramos os pés no pretérito para tais artistas. Confirmamos que a fonte criativa estagnou com o tempo e estes persistem como simulacros de si mesmos.




A dupla formada por Roland Orzabal e Curt Smith que se dissolveu na década de 90 reagrupou-se em 2004 em um bom álbum, mas com recepção mista. Dezoito anos depois, os dois trazem 10 canções numa conversa íntima e sincera sobre perdas, amores e a impermanência de vida. Um disco que mescla de forma impecável o moderno com o nostálgico.

Eu conheço pessoas que diariamente abrem aquele livreto Minutos de Sabedoria, fecham os olhos e deixam a imprevisibilidade sortear a frase do dia: um conselho, uma frase motivadora ou uma reflexão. Sem querer ser doutrinário e sem nenhum caráter depreciativo da minha parte, o novo álbum do Tears for Fears me remeteu ao famoso livrinho. Não pinta apenas tonalidades vibrantes, acolhe a monocromia de um passado inclemente e vislumbra um futuro de um mosaico de cores. É uma sessão de terapia e das boas!

As dez canções que compõem o disco por mais que guardem uma certa semelhança da sonoridade da banda em outros trabalhos, em nenhum momento soam repetitivas.

A música de abertura No Small Thing traz as vozes em um tom levemente mais alto que a melodia. Os acordes do violão remetem ao folk e a harmonia vocal, às grandes canções de Simon & Garfunkel ou até mesmo de Bob Dylan. A faixa-título do álbum, The Tipping Point, faz uso dos sintetizadores que tanto marcaram a banda nos anos 80, o synth-pop. A ária retrata aquele momento onde precisamos movimentar a roda do tempo e conciliar-se com o passado de dor e luto. 

Long, Long, Long Time na voz suave de Curtis é uma ótima representante do new wave e tem um dos melhores refrões de todo álbum que inspiram o cerrar dos olhos, o menear da cabeça e braços que almejam o infinito. Novamente aqui Orzabal reflete o processo do luto depois da morte da esposa. Break the Man amiúde parece uma continuidade de Woman In Chains. Um ótimo manifesto pró-feminista. 

My Demons tem uma batida mais potente. São sintetizadores e música eletrônica que reverberam da canção. Rivers of Mercy é uma baladinha graciosa, uma prece de libertação. Please Be Happy segue a linha melódica das canções de McCartney conduzidas pelo piano. É Beatles na sua beleza mais singular e talvez minha favorita.

Master Plan também emula os Beatles, mas nunca é uma referência vazia ou cópia de outras canções. End of Night esconde por trás do seu groove e da vibração dos sintetizadores uma melancolia em toda sua opulência. Lidar com a doença da parceira, o seu fenecer e a sensação asfixiante de culpa são cicatrizes indeléveis que Orzabal tenta expurgar em seu cântico.

Stay fecha o álbum de uma forma inebriante e num ar etéreo. Lembra em determinados momentos os elementos melódicos dos adágios da banda de post-rock Sigur Rós com um caráter existencialista. 




Nesse novo álbum tanto Smith como Orzabal não estão interessados em inovações musicais nem em reviver o passado. A síntese de The Tipping Point é a celebração dessa parceria. São as belíssimas letras e ótimas melodias advindas de um dueto com uma química incrível. É ululante que ninguém sabe fazer refrões como esses dois. Um disco que você não cansa de ouvir sem pular uma faixa sequer.

Nessa jornada emocional, Tears For Fears nos transporta ao olho do furacão e nos convida a enxergar que depois do tormento e diante das nuvens que se afastam, do cheiro da relva parcialmente molhada e da areia ainda úmida, o sol invariavelmente irá se formar.



segunda-feira, 2 de janeiro de 2023



Olá, tudo bem? No início dos anos 2000 eu me aventurei no universo dos blogs. De um diário pessoal meio caótico e aberto a todos, comecei a escrever sobre meus grandes amores: o Cinema e a Literatura. Voltei a esboçar um retorno à escrita poética, mas ainda fora bem sutil. Era um painel de textos diversos. Tornou-se um vício essa vida de blogueira que tinha uma conotação bem diferente da atual. Pretendo voltar, porém sem essa obrigação compulsiva de outrora.

À medida que postava menos no meu blog principal, fiquei noiva e fiz um blog sobre casamento por pura empolgação. Com a maternidade foi tudo esvaindo até que feneceu. Meu finado blog ainda só funciona como uma fonte de busca de ideias quando sai nada da minha caixola.

        O Instagram tornou-se uma ferramenta para expandir o meu pensamento, de falar sobre arte, literatura, sétima e nona arte e minha paixão mais recente: os doramas ou dramas coreanos. Conforme minha notória prolixidade, alguns textos não cabiam apenas numa postagem e como a dificuldade da leitura impregna não apenas as crianças como também os adultos, optei pelo retorno a esse ambiente a fim de não permitir o cansaço de quem esteja lendo lá no Instagram e para aqueles que desejem uma análise mais aprofundada acerca do assunto postado. Até quando durará esse blog? Não sei. Foco e tempo, eis a questão. Desejo de vida: entrar numa bolha temporal para poder fazer tudo que amo e muito mais.

           Ler não é castigo, ler é recompensa. Ler não é fuga, ler é morada. Filmes e mais filmes, na tela maior possível e com o mínimo de interrupções. Todo amor à arte.

 

 Até a próxima!

 

                                 Karinne.